
diario? crônica literária? aranzel sem fim? sangue, bílis, fleuma ou linfa? não importa, penso sem norte.
terça-feira, junho 19, 2007
volta rizomática

quinta-feira, junho 29, 2006
hiato

"sabendo que a última chance de continuar com os pés no chão é inventando outros chãos para mim. inventando, leia-se escrevendo. escrevendo e agarrando com os dentes minha improvável lucidez"
excerto de 'As pessoas dos livros', de Fernanda Young (OBRIGADA, PAT, POR ME EMPRESTAR)
só que, sabe, é tanta música, é tanta coisa dentro desse antigo-rotacionado, que não tenho conseguido debruçar-me sobre um teclado para dar forma a isso. continuo escrevendo, mas quero guardar essas letras comigo por enquanto. no momento, estou tentando reconhecer essa coisa amorfa que é o passar dos dias sobre mim e o meu passo sobre os dias!
quinta-feira, junho 08, 2006
plangência dirimida*
*à memória de C.F.A, a quem devo parte do saber-me assimvou gravar numa fita k7
todo silêncio que a fita durar
vou cantar pra sarar
toda vergonha que o tempo
não vai poder remediar
vou valsar em prelúdio a dança
não aceita quando o dia
terminou sem perdoar
vou gastar saliva
falando o que já não tem mais pra falar
vou gritar o que você
já não suporta mais escutar
.todo corpo em repouso precisa de uma força para se movimentar .
*
Não podia acalentar-se dizendo: isto é apenas uma pausa, a vida depois virá como uma onda de sangue, lavando-me, umedecendo a madeira crestada. Não podia engarnar-se porque sabia que também estava vivendo e que aqueles momentos eram o auge de alguma coisa difícil, de uma experiência dolorosa que ela devia agradecer: quase como sentir o tempo fora de si mesma, abstraindo-se.
como se se aproximasse a cada instante da beira da loucura. já havia aquele balançar caricatural dos loucos de manicômio, a sensação de que algo estava para acontecer. não, algo já estava acontecendo. e ela, estando fora por estar demasiado dentro, não sabia o que era, mas sentia.
podia reconhecer os sinais no oscilar do tempo, nos olhares, na forma como se encolhia ao dormir. era irrefutável. estava ali, nos vértices do quarto, como os fantasmas deliquescidos dos filmes de terror japonês.
faltava pouco. talvez uma borboleta extraída da sua cabeça, talvez uma boneca de pano com nome estranho, talvez um balbuciar de palavras incognoscíveis... e, então, ela teria por fim uma definição, um diagnóstico de nome extenso que, seja qual for, tem sinônimo certo: louca varrida.
quinta-feira, junho 01, 2006
_________aquático jazigo
"Sour Times"Portishead
To pretend no one can find
The fallacies of morning rose
Forbidden fruit, hidden eyes
Curtises that I despise in me
Take a ride, take a shot now
Cause nobody loves me
It's true
Not like you do
Covered by the blind belief
That fantasies of sinful screens
Bear the facts, assume the dye
End the vows no need to lie, enjoy
Take a ride, take a shot now
Cause nobody loves me
It's true
Not like you do
Who am I, what and why
Cause all I have left is my memories of yesterday
Oh these sour times
Cause nobody loves me
It's true
Not like you do
After time the bitter taste
Of innocence decent or race
Scattered seeds, buried lives
Mysteries of our disguise revolve
Circumstance will decide ....
Cause nobody loves me
It's true
Not like you do
***
Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
no entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado ao meu ouvido
e o que tu dizes nem pode ser cantado
porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria
E no meu quarto se faz verbo de amor.
(Poema V de Ode Descontínua e Remota para flauta e oboé..., de Hilst)
***
sim, com efeito, não há melhor fomentador para a criatividade que os ânimos. eles têm ido e vindo, mas hoje não quero deixá-los à tona. quero a submersão, o naufrágio mesmo! que eles se desfaçam na ponta dos meus dedos, no estalar do meu isqueiro, no desenho do meu corpo entorpecido na cama, e me abandonem pela manhã! porque todos agora parecem clamar pela sua vez de orientar o que eu escrevo, digo que é demais. não posso agora querer tecer amavios a todos eles... prefiro-os assim, submersos, jungidos no fundo de mim. quem sabe se eu os recolher possa lidar melhor com esse expulsar-rogar em que eles me colocaram?
* depois escrevo algo compreensível!
quarta-feira, maio 10, 2006
______febre terçã_____________

É bem provável que, mesmo agora, com dezenas de teclas a meu dispor, eu esteja hesitante quanto ao que “escrever”. Pior ainda, é certo não saber se é direito. Uma comoção assoma neste instante em que sei que já não posso mais me furtar o deleite exasperado que somente o livrar-me de uma idéia, ao dar-lhe roupa de palavra, pode ter.
Meus dias sem uma rotina, propriamente dita e exaltada de forma estentória pelo imaginário coletivo, trazem meus pensamentos sempre febris, impelindo meus olhos a se abrirem, a se arregalarem mesmo, para assim, talvez, eu enxergar mais do que vejo. Não obstante, quem produz tal efeito é a inflamação na minha mente e, assim sendo, acabo por enxergar com candura o que não me fora ofertado, meus olhos piscam flamejantes, iracundos, com uma ofensa que não me fora dirigida... Seria mais preciso dizer, por certo, que vivo embebida em estados de ânimo espasmódicos e, se me coloco como agente da passiva, é porque disso não tenho passado: não são os estados de ânimo de Aline e, sim, a Aline dos estados de ânimo diversos...
De quando em vez, ponho as costas da mão esquerda sobre meu pescoço para me certificar de que o meu corpo também vivencia a mesma febre terçã, e me pego sorrindo mesmo antes de uma pele encontrar a outra para a citada certificação. E nisso de sentir febre sem o corpo sabê-lo, e nisso de sorrir disso, e nisso de ousar descrever isso de sentir e de sorrir de algo que não se pode comprovar, meus olhos inexoravelmente hão de marejar como se eu tivesse encontrado alguém que eu amo muito mas partiu como se para sempre e que agora eu avistasse caminhando na minha direção.
Sabe o quê mais? Eu quero amar essa visitante imaginária. Não, não, acabo de convencer-me de que a amo mesmo. Dei a ela cores e estatura, gestos e mãos, sombras e um desenho de traçado firme. Como qualquer mulher, ela tem uma história pintada na retina e muitas outras por trás e de algumas delas não me será dada notícia. Como a mulher que caminha para mim, tudo o que ela diz, ainda o que da boca não sair, é colhido com zelo ora de quem guia com maestria, ora de quem tateia o que não sabe que lá está.
Essa mulher conserva a pele sempre quente de tal maneira que a minha, que também deveria ser quente, teima em não o ser só para suplicar ainda mais os calores do corpo dela. Ela diz que eu devo ser sempre dela e pede que eu jure só suplicar assim por ela. Não tenho outra alternativa senão jurar de olhos risonhos e dizer que sim, mas que idéia, quem mais eu poderia querer? Juro e digo numa mentira escancarada que, ao invés de profanar meu juramento, só o doura de emolumentos e bálsamos.
Porque essa mulher que veio recostar sua cabeça majestosamente indecifrável em meus travesseiros para abrir meus poros aos suores, minhas pernas aos frêmitos e meus ouvidos aos apelos, não estará aqui quando eu acordar (e pode ser que se desembarace das minhas pernas no meio da noite), mas, com efeito, já é minha como eu sou da febre...
terça-feira, abril 18, 2006
_____une charogne!*

* uma carniça
Remords Posthume
Charles Baudelaire
Lorsque tu dormiras, ma belle ténébreuse,
Au fond d'un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n'auras pour alcôve et manoir
Qu'un caveau pluvieux et qu'une et qu'une fosse creuse;
Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu'assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton coeur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,
Le tombeau, confident de mon rêve infini
- car le tombeau toujours comprendra le poète -,
Durant ces longues nuits d'où le somme est banni,
Te dira: "Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n'avoir pas connu ce que pleurent les morts?"
- et le ver rongera ta peau comme un remmords.
traduzindo...
Remorso Póstumo
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,
O túmulo, que tem um confidente em mim
- porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
na insônia sepulcral dessas noites sem fim,
Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?"
- e o verme te roerá como um remorso atroz.
*contar quantos grãos há numa tonelada de feijão;
*contar quantos pêlos púbicos você tem;
*escrever a mesma frase até preencher um caderno de dez matérias (de preferência algo como EU SOU UM EXCREMENTO);
*bater a cabeça na parede até desmaiar;
*pôr pedregulhos nos bolsos de sua roupa e se jogar num rio (só para testar a Física)...
Mas, se não se sentir tentada a acatar nenhuma dessas dicas, você poderia tentar outra coisa, como ir cuidar da sua vida!!!!!!!!!!! Experimente acordar e não lembrar mais de mim. Se lembrar, afaste esse pensamento... Você é tão articulada, tão fértil em estratagemas, por que não procura outro nome para despejar o seu sadismo? Vai trepar, minha filha, vai ser feliz, vai procurar um pano de prato pra lavar, vai se coçar... sei lá, VAI SE FUDER!!!
Sabe como é... eu desisti da minha cadeira na ONU e não tenho mais paciência para a sua obssessão, sabe? Então, sai da minha frente, ser abjeto, porque eu vou passar por cima de você!